"Profissão concurseiro": veja por que vale a pena se dedicar aos estudos para concursos públicos

 

O mercado de trabalho é competitivo, mas a disputa por uma vaga em um concurso público pode ser mais. Ainda assim, cada dia aumenta mais o número de candidatos. Optar por, muitas vezes, abandonar a carreira a fim de se dedicar aos estudos, ou organizar a rotina para trabalhar e ainda ter chances de aprovação são alguns dos desafios desses profissionais “concurseiros”.

Para Eduardo Sperk Neto, consultor de carreiras do EAV Simulados Online, o que faz aumentar o interesse por uma carreira pública são as vantagens em relação à maioria dos cargos em empresas privadas. “Por exemplo, os concursos oferecem estabilidade após três anos. Alguns cargos têm, além das férias, recesso de 15 dias, ou licença prêmio (3 meses a cada 5 anos). Além disso, há um plano de carreira bem estruturado e avanços”, comenta.

Débora Luzardo Rodrigues é um exemplo de quem tem o foco da carreira na aprovação de um concurso público. Formada em Direito há seis anos e trabalhando com advocacia há quatro, ela entende que o mercado de trabalho de sua profissão “se divide em dois: advogados que exercem a profissão em escritórios grandes, geralmente, como empregados, com uma remuneração baixa em comparação com a atividade exercida (salário inicial variável em R$ 1500 por oito horas diárias, a maioria sem vale-transporte e alimentação); e os advogados e/ou bacharéis que estudam para concurso”.

A decisão de se dedicar aos concursos também tem dois lados. “Primeiro por uma questão pessoal: segurança financeira, manter o padrão de vida que meus pais me proporcionam (classe média alta); segundo, por uma visão coletiva: ajudar as pessoas, fazendo um bom trabalho e tentando evitar a burocracia”, explica. Débora estuda para as provas há quatro anos e garante que já se inscreveu em mais de 15 concursos, sem precisar largar o trabalho.

E o resultado já apareceu: a advogada já foi aprovada três vezes, sendo que está na iminência de exercer um dos cargos. No entanto, seu principal objetivo é ser Delegada de Polícia e, por isso, segue estudando.

A rotina inclui de cinco a seis horas por dia de concentração nos conteúdos, com resoluções de questões e análise de um a cinco pontos de edital por dia, dependendo da extensão e dificuldade da matéria. Além disso, investe em cursos preparatórios. “Tenho preferido cursos à distância, pois não há perda de tempo com deslocamento até o local, as aulas, na grande maioria das vezes podem ser assistidas mais de uma vez e não ocorre interrupção para perguntas como na sala de aula convencional”, conta.

Quando vier a aprovação desejada, Débora pretende direcionar seus esforços para uma área específica. “Poderei me especializar, aprofundar conhecimentos através de um Mestrado, buscar outros conhecimentos, inclusive fora do Direito, que por enquanto estão fora de questão por falta de tempo”, diz.

Concursos não são apenas para advogados
Mesmo que a oferta seja bastante tentadora na área do Direito, com cargos de altos salários, outras áreas também buscam as vantagens oferecidas pela carreira. É o caso de Luciane Menegassi da Motta, graduada em Relações Públicas com pós-graduação em Gestão Estratégica de Pessoas.

Para ela, mesmo com diversas possibilidades de atuação, os salários de um profissional de RRPP não são muito bons – poucos realmente têm uma boa remuneração. “Meu pai é funcionário público há mais de 20 anos, ele é minha grande inspiração. Vejo a qualidade de vida que ele tem e disse que queria a mesma coisa, só que percebi que na iniciativa privada seria muito complicado e que ainda assim eu não teria todas as vantagens do serviço público, como a estabilidade”, conta.

Por isso, largou o emprego que já estava havia quatro anos e há quase três de dedica exclusivamente aos estudos. “Gostava bastante do que eu fazia, mas não havia muita possibilidade de crescimento e o salário não era muito atrativo, então conversei com os meus pais e eles me deram o maior apoio”, comenta. Para se preparar, tem aula todos os dias de manhã e, às vezes, no turno da tarde participa de cursos pontuais, como o de resolução de questões. Depois das aulas, segue por mais três ou quatro horas na companhia dos livros, fora os finais de semana.

“Pretendo prestar o serviço da melhor forma possível, quero cursar a faculdade de direito para me especializar ainda mais no cargo para o qual for nomeada”, diz Luciane sobre o que imagina da vida após a aprovação.

Oferta x procura
Eduardo garante que cada vez mais as pessoas estão tentando os concursos públicos, mas poucos investem (tempo e dinheiro) em qualificação e acabam desistindo. Além disso, há uma pequena migração dos profissionais de empresas privadas. “Mas acho que a maior parte são as pessoas que estão começando na vida adulta (início de faculdade, principalmente direito) e que já direcionam a sua carreira nesse sentido. A troca é muito mais difícil, no meu ponto de vista. Acredito que as pessoas não acreditem que possam concorrer, mas conheço muitas histórias de sucesso”, comenta.

Para chegar à aprovação, o consultor acredita que o candidato deve tentar as mais diversas formas de aprendizado e verificar qual delas é melhor. A resolução de questões segue sendo a melhor forma de se preparar para uma prova. “Deve-se dedicar o tempo necessário para os estudos, mas é indispensável cuidar da mente também, fazendo alguma atividade que goste. Porém, acho importante o estudo contínuo preferencialmente todos os dias”, diz.

Conselhos para quem quer tentar
Tudo bem que, se conselho fosse bom, não era gratuito. Mas antes de tomar uma decisão como essa, que envolve extrema dedicação, saber o que pensam aqueles que já estão envolvidos nessa realidade pode ajudar.

“A ‘carreira de concurseiro’ independe da área profissional escolhida. No Direito, há muitos concursos, contudo há também muita gente concorrendo. A concorrência entre os candidatos se dá, muitas vezes, por milésimos de pontos. Assim, exige mais dedicação e empenho para quem é dessa área. Concurso não é para qualquer um, tem que ter muita garra, não se deixar abater por resultados não satisfatórios e seguir estudando até passar, lema do Prof. e Juiz Federal Willian Douglas, que adotei para mim também”, salienta Débora.

Luciane também tem um pensamento parecido. “Estudar para concurso não é fácil, você abre mão de muita coisa por um objetivo futuro que, às vezes, demora pra chegar. Mas o importante é não perder o foco, se organizar e ter consciência de que um dia a vitória chega. Tem uma frase que eu não me lembro de quem é, mas que tenho como um mantra, e toda vez que penso em desistir eu fico repetindo ela, diz mais ou menos assim: ‘quando você pensar em desistir, lembre dos motivos que te fizeram começar’”, diz.

Tentar diversos concursos é a dica de Eduardo. “Escolha concursos mais simples para começar e ir aumentando o nível de acordo com sua capacidade. Invista nos concursos, em professores qualificados, que podem reduzir o tempo de aprovação nos concursos. Invista algumas horas por semana durante o tempo necessário para alcançar o objetivo. Veja aula de diversos professores da mesma matéria, troque de cursos, de professores... Por melhor que um professor seja, outro pode abordar assuntos de outras formas, de maneira que alguma dificuldade pode ser sanada vista de outro ponto”, conclui o consultor.